Gwen Stefani, Musas de Direita e Retornos de Saturno
Just a MAGA Girl
Em 2004, para a Revista Seventeen (a Capricho deles), Courtney Love, com quem Gwen Stefani não possuía nenhuma desavença, declarou:
“Ser famosa é como estar no Ensino Médio. Mas não estou interessada em ser a líder de torcida. Não estou interessada em ser Gwen Stefani. Ela é a líder de torcida e eu sou a que fica fumando no depósito.”
Foi obviamente uma forma de desmerecer Gwen como frontwoman de uma banda de rock, a caracterizando como uma mulher que fazia sucesso apenas por sua beleza, charme e vontade de agradar, desconsiderando sua presença de palco e talento como cantora e compositora.
Foi injusto, mas foi também a inspiração para um dos maiores sucessos de Stefani, Hollaback Girl. E Gwen precisava de inspiração. Em pleno hiato do No Doubt, ela preparava seu primeiro álbum solo e se via cercada de incertezas sobre como proceder. Não era a primeira vez em que Gwen se sentia em conflito sobre quem ela era e com medo de decepcionar outras pessoas.
Nascida em família católica em Orange County (região majoritariamente republicana, que foi se transformando em região mista a partir de 2016), Gwen começou sua jornada musical cedo, como uma adolescente comum fazendo backing vocal para a banda fundada com seu irmão mais velho, Eric.
Após o suicídio do vocalista principal, John Spence, Gwen assumiu seu posto.
Durante a produção de Tragic Kingdom (1995), o terceiro álbum da banda que os levaria ao sucesso mainstream, Eric Stefani deixou a banda por diferenças criativas com o caminho pelo qual a gravadora Interscope queria levar o grupo. Só que Eric era o principal compositor do No Doubt, e Gwen, que compunha com ele, assumiu seu posto e as músicas passaram a expressar o seu ponto de vista, inevitavelmente focando em experiências femininas.
Don’t Speak, originalmente uma canção de amor composta pelos irmãos Stefani, foi retrabalhada por Gwen para se tornar uma das maiores e melhores músicas de dor de cotovelo da história, notoriamente sobre seu término Gwen com o baixista Tony Kanal. Pensa em um clima gostoso que deve ter ficado na banda.
Just a Girl, outro grande hit do mesmo projeto, foi a primeira canção que Gwen escreveu sem ajuda do irmão, inspirada por uma noite em que seu pai lhe deu uma bronca por dirigir tarde da noite. “Eu só queria escrever uma canção sobre como eu me sentia no momento,” Gwen explicou para a revista People em 2017. E assim foi por toda sua carreira.
Gwen não tinha intenção de escrever um hino feminista, mas ao cantar sobre sua própria experiência, reconhecendo que o tratamento que recebia era diferente do que um homem receberia, foi isso que aconteceu.
De feminista a fascista?
Muita gente foi pega de surpresa ano passado quando Stefani começou a aparecer em propagandas para um “app de orações.” À primeira vista, isso não seria um problema. Faria até sentido, visto que Stefani sempre foi católica, mas o aplicativo “Hallow” não é apenas uma simples ferramenta para oração.
Conhecido como “pay-to-pray,” o aplicativo possui versão gratuita mas também oferece assinatura premium, que destrava mais orações diárias e meditações. Uma crítica comum (e válida) a este tipo de aplicativo é a monetização da fé, mas o Hallow possui um problema muito maior: Conexões com a extrema-direita estado-unidense como Peter Thiel, apoiador bilionário de Trump, e JD Vance, vice do próprio Trump.
Para entender como Gwen Stefani chegou a este momento, vamos continuar a história e nos lembrar de como Gwen sempre absorveu traços de pessoas ao seu redor, igual aquela sua amiga ou amigo que mudou de personalidade depois de começar a namorar.
Pelo namoro com Tony Kanal, descendente de indianos, Gwen passou a usar um bindi na testa - Talvez a primeira de várias apropriações culturais que aconteceriam ao longo de sua vida.
Em 1995, ela começou a namorar Gavin Rossdale da banda Bush.
O relacionamento foi conturbado desde o início e tudo foi documentado pelas composições de Gwen para o quarto (e em minha opinião, melhor) álbum do No Doubt, Return of Saturn, lançado no ano 2000.
Astronomicamente, Saturno leva aproximadamente 29 anos para dar uma volta completa em torno do Sol.
Astrologicamente, esse “retorno” do planeta ao ponto em que estava quando uma pessoa nasceu começa a afetá-la quando ela completa entre 27 e 30 anos, trazendo um período turbulento de amadurecimento, testes e questionamentos profundos sobre todos os aspectos da vida de uma pessoa.
Para Gwen Stefani, seu maior conflito era continuar sua carreira ou colocá-la em segundo plano por uma vida doméstica comum.
Em Ex-Girlfriend, Gwen canta que sempre soube que se tornaria a ex-namorada de Gavin Rossdale.
Em Too Late, ela canta:
“Eu só quero te tirar de todos
E mantê-lo guardado embaixo do meu travesseiro
E então eu te tiraria de lá simplesmente para meu próprio prazer
E te vestiria quando a ocasião é especial
Então eu te colocaria no dedo como um diamante
Para que eu possa brilhar e ser a inveja das minhas amigas
Eu orgulhosamente puxaria a sua coleira
Para que você não possa escapar e tenha que me seguir o dia todo”
Eu busco um relacionamento assim. Saudável. Mas a canção que melhor ilustra a situação de Gwen é “A Simple Kind of Life” em que ela se sente culpada e egoísta por seguir uma vida de artista ao invés de construir uma família. Pelos versos ela anseia por uma vida simples, sonha em ser esposa, e confessa que às vezes deseja um erro: Que a pílula anticoncepcional falhe e ela engravide.

Gwen havia chegado ao seu limite, mas essas questões já estavam em sua mente desde o relacionamento com Tony. Em 2005, ela revelou que enquanto estava com ele, pedia a Deus para que eles tivessem um bebê.
O próximo álbum, Rocksteady, veio em 2001 com uma sonoridade muito mais leve e pop, mas Gwen continuava ruminando sobre as mesmas questões em canções como “In My Head” e “Detective,” em que ela suspeita de traição. Apesar de tudo, ela enxerga o lado positivo de seu relacionamento em “Underneath It All.”
No ano seguinte, Gwen Stefani realizou o sonho de se tornar esposa de Gavin Rossdale.
Carreira Solo
Em 2003, um ano após se casar, Gwen foi encorajada pelo presidente da Interscope Records a trabalhar em um álbum solo. Uma das primeiras canções a serem compostas foi “What You Waiting For?” com Linda Perry. Ela viria a ser o lead single do Love. Angel. Music. Baby e traz novamente Stefani cercada de dúvidas e inseguranças.
Ela se vê com medo de ser acusada de estar se vendendo (Alô, Courtney Love!) mas ao mesmo tempo observa que precisa agir agora por ser mulher em uma indústria que as trata como se tivessem um prazo de validade. Na ponte, Gwen fala como mal pode esperar para voltar ao Japão...
Lembra das Harajuku Girls? Quatro mulheres japonesas que Gwen usava como acessório?
A fascinação de Gwen com a cultura japonesa começou em 1996, e para quem já havia sido indiana, a hora de ser japonesa era agora. Gwen parecia estar fazendo uma speedrun de apropriação cultural. Na mesma era ela foi japonesa, negra e latina.
Seu plano era voltar ao No Doubt terminando a era, mas Pharrell a encorajou a lançar uma sequência ao L.A.M.B., gravando músicas novas e reaproveitando algumas que ficaram de fora do primeiro álbum. Na faixa “Orange County Girl,” ela fala sobre isso e reitera algumas das inseguranças de sempre, como se sentir egoísta por estar trabalhando em outro solo e deixando o No Doubt em espera.
A espera acabou em 2012, com um retorno um pouco morno no álbum Push & Shove, e 10 anos depois, Gwen diria que esse retorno foi confuso e gravar esse álbum foi uma batalha, o que explicava o material um pouco prosaico. Foi nessa época, quando as discussões sobre apropriação cultural estavam no auge, que alguém teve a brilhante ideia de vestir Gwen Stefani como nativa americana loira no clipe de Looking Hot.
A verdade, e eu admito isso como antigo fã, é que sua inspiração vinha diminuindo a cada lançamento. L.A.M.B. foi seu ápice, talvez meu álbum preferidos de todos os tempos, mas The Sweet Escape, embora eu ame demais, é uma versão inferior do antecessor. Push & Shove se tornou o álbum mais sem sal do No Doubt, e quando Gwen resolveu voltar à carreira solo, sua fonte parecia estar secando de vez.
“Baby Don’t Lie” e “Spark the Fire,” lançadas em 2014, eram boas, mas não o bastante. Se essas faixas eram os singles do futuro terceiro álbum, imagina como seriam as outras faixas. Mas então algo aconteceu: Gavin Rossdale a traiu com a babá.
No fundo, isso não deve ter sido uma grande surpresa para Gwen, que na faixa “The Real Thing” do L.A.M.B., descrevia a relação como uma montanha russa construída para quebrar. A inspiração de Gwen voltou, e gerou o álbum “This is What the Truth Feels Like,” que apesar de inferior aos antecessores, é competente. O álbum documenta não apenas a traição e fim do casamento com Rossdale, como também o início de seu relacionamento com Blake Shelton, seu colega de júri no The Voice, que também estava passando pelo fim de um casamento.
Então a vida pessoal de Gwen Stefani se acertou. Feliz em seu segundo casamento, sem pressões em sua carreira, sua inspiração voltou à queda livre.
Um álbum natalino foi desovado em 2017, relançado em 2020 e relançado novamente ano passado.
Fora isso, o início da possível era de seu quarto álbum solo veio em 2020 com o single “Let Me Reintroduce Myself.” O clipe traz a Gwen Stefani do presente reencontrando suas (melhores) versões do passado. Mas essa reapresentação só nos fez sentir mais saudades de quando ela estava no auge.
Em 2021 veio “Slow Clap”. Esse single parece ter sido feita por uma inteligência artificial alimentada pelos álbuns solo de Gwen, mas a IA generativa como conhecemos hoje ainda nem existia. Pouco tempo depois, foi relançado com uma participação da rapper Saweetie, mas era 2021, não 2008, e colocar um rap aleatório deixando uma música ruim ainda pior, não fez o single ter sucesso. Finalmente, em 2023, a terceira tentativa veio como “True Babe,” trazendo um som nostálgico similar ao No Doubt dos velhos tempos e me fazendo acreditar que agora sim o quarto álbum ia emocionar...
Ao invés disso aconteceu o inevitável. Casada com Blake Shelton, até que demorou bastante para Gwen absorver a identidade dele. Um single country gravado pelo casal foi lançado como a primeira pá de terra a cobrir o caixão da Gwen Stefani que conhecíamos. O quarto álbum se tornou “Bouquet,” não apenas um álbum country, mas um álbum country insípido, genérico e esquecível. Fracasso comercial e crítico. Infelizmente, mais do que apenas uma mudança de direção artística, logo recebemos os sinais do conservadorismo de Gwen Stefani.
A propaganda para o aplicativo Hallow foi difícil de engolir, e eu poderia tentar tapar o Sol com a peneira e argumentar que seu envolvimento era apenas reflexo de sua fé pessoal. Eu poderia fingir que Gwen aceitou apenas pelo dinheiro e não fazia nem ideia de que seu app de pagar para rezar propaga mensagens anti-LGBTQ+ e anti-aborto, mas então ela decidiu postar um tweet, elogiando a entrevista de um ator da série bíblica “The Chosen” no programa de Tucker Carlson, ativista de direita e uma das maiores vozes do movimento MAGA. A essa altura, fica difícil acreditar que uma pessoa com múltiplos envolvimentos com a direita não seja de direita, principalmente quando ela se mantém calada enquanto Trump dia após dia aumenta suas tiranias.
O Retorno do Retorno de Saturno
Quando uma pessoa completa entre 56 e 60 anos, Saturno completa mais uma volta.
Não acredito em astrologia, mas admiro esse conceito. Se o primeiro retorno marca o amadurecimento e entrada na vida adulta, o segundo retorno marca um período de reavaliação em que a pessoa analisa seu legado e conhece seu verdadeiro eu de maneira mais definitiva (um terceiro retorno de Saturno ocorre geralmente entre 84 e 90 anos, mas nem todos vivem até lá).
Gwen completou 56 anos em Outubro. Rumores de crise no casamento e divórcio foram negados por Shelton.
Para eu, que costumava ser fã e agora tenho sentimentos conflitantes com a possível paquita do Trump, surge uma pontada de esperança que ela acorde e se posicione contra a tirania da Ameaça Laranja, mas refletindo melhor sobre sua jornada até hoje e sendo realista, é mais provável que esse seja o retorno de Saturno em que ela finalmente se aceita como mera mulher branca conservadora de Orange County.












Nem sou fã da Gwen, mas o texto me prendeu do começo ao fim
ótimo texto! devo dizer, com um sorrisinho maligno de canto de boca, que a courtney love é a pessoa mais imoral que eu admiro. ela consegue ofender todo mundo sem distinção!