Sobre Rabos e Mártires
De André Dogão a Pascal Laugier
Já dizia a grande filósofa grega Marina Diamandis: “Nós temos obsessões.” Alguns menos, outros mais.
Eu, que fui uma criança com TOC, até que não tenho tantas assim. E beleza, tecnicamente eu sou um adulto com TOC, pois não possui cura, mas como os sintomas estão controlados, não me vejo assim.
Se eu parar para pensar, as obsessões talvez ainda estejam por aqui, à espreita. O segredo é não parar pra pensar, e se alguém souber como, por favor me diga. Não importa, essa newsletter não é sobre esse tipo de obsessão. Não é sobre pensamentos intrusivos.
É sobre como as fotos da campanha foratemercore de Manuela d’Ávila se encaixam perfeitamente na capa do álbum da nepobaby mais nepobaby de todos os tempos. É sobre como eu tenho 97% de certeza que alguém já apontou isso antes e já fez uma montagem, mas eu não encontrei a imagem, e não encontrei paz até eu mesmo fazer a tal montagem.
É sobre o tipo de acontecimento que vira e mexe, não importa quanto tempo passe, volta a me fascinar.
Estou falando, é claro, da vez que Mauricio de Souza curtiu um tweet bastante específico. Essa é a minha obsessão de hoje.
Já faz anos e o Twitter nem exibe mais as curtidas de outras pessoas, mas eu te asseguro que esse print é real. Eu vi. Eu estava lá. Não lá no lugar em que Mauricio estava quando apreciou o rabo que você deveria comer antes de morrer número 75, mas mexendo no celular quando o flagra viralizou.
As especulações logo começaram: Seria o pai da Mônica bissexual?
Isso não me interessa de maneira alguma. Especular sobre a sexualidade alheia é tão... déclassé.
O mais provável é que tenha sido outra pessoa a curtir o tweet. Uma figura pública como Mauricio de Souza certamente possui uma equipe que cuida de suas redes sociais, e não é improvável que algum funcionário tenha curtido, esquecendo em qual perfil estava logado. Houve até especulações de que a curtida tivesse vindo do filho gay de Mauricio, mas isso também não me interessa.
O tweet em si foi perdido há muito tempo. Eu me lembro de ficar triste por pesquisá-lo quando ainda era recente, e ele já ter sido deletado. Pode tentar pesquisar. Você não irá encontrá-lo, mas talvez me encontre:
Eu sou movido por curiosidade. E é isso que me interessa. Eu não vou fingir superioridade. Eu queria ter visto quais 501 rabos eram tão impressionantes que qualquer pessoa na face da Terra deveria comer antes de morrer. Quem são os donos desses rabos? Eles sabem da preciosidade de seus próprios traseiros?
Ainda mais importante: Será que alguém conseguiu completar a missão de comer esses 501 rabos?
E pensar que algumas pessoas se orgulham de ter ouvido os 1001 discos, lido os 1001 livros, ou assistido os 1001 filmes que editores e críticos decidiram que deveriam ser explorados antes de morrer.
Primeiro que se você realmente completou uma dessas listas, te acho facilmente sugestionável e de personalidade fraca. Acho esses livros válidos como material de pesquisa (especialmente antes da internet ser tão presente como hoje), mas aceitar as 1001 sugestões? Mesmo sabendo que você não vai gostar de todas as 1001 sugestões? Eu não preciso ouvir 1001 discos para saber que não vou gostar das obras de artistas ou gêneros musicais que eu não gosto. Ninguém precisa.
E aqui o ponto é: Qualquer um pode alcançar tais conquistas. Qualquer um com tempo livre e nada melhor para fazer. Mas 501 rabos específicos? Aqui sim há um desafio.
Você precisaria encontrar cada um dos donos desses rabos e seduzi-los um por um. Ou pagar. Tudo que tenho dessa lista são as imagens censuradas do rabo n° 75, mas são o suficiente para deduzir que ao menos uma parcela dos listados pertencia à indústria sexual.
Será que existe alguém que comeu os 501 rabos antes de morrer? E será que depois de comer, essa pessoa morreu? Será que o criador da lista, André Dogão, teria comido os 501 rabos?
Como grande defensor do jornalismo verdade eu precisei ir até a fonte e contactei André Dogão pelo meio mais profissional possível: Enviei uma DM pelo Twitter.
Montebello: Boa tarde, André. Tudo bem? Meu nome é Montebello e escrevo para a newsletter Tudo Me Incomoda. Gostaria de te fazer algumas perguntas sobre seu famoso tweet curtido por Mauricio de Souza, se possível.
Dogão: Haha isso foi algum erro e acabou gerando a exclusão do meu perfil na época.
Montebello: E você chegou a completar a lista de 501 rabos, ou a conta foi banida antes de terminar?
Dogão: Foi banida antes de completar.
Montebello: Que pena. E como tinha sido feita a seleção? Eram homens que você conhecia?
Dogão: Não, apenas fotos que eu seleciono na Internet.
Confesso que não fiquei satisfeito. As respostas foram o que eu esperava. O misticismo em torno da questão se acabou. A lista nem sequer foi terminada. Aqui eu poderia aproveitar a tangente do Sr. Dogão para lembrar-vos de quanto Rick Bonadio cometeu um ato de terrorismo: A “música” “Dogão É Mau,” interpretada por um “rapper” 2D, um cachorro promíscuo, uma espécie de Gorillaz, se Gorillaz lançasse ataque nucleares em forma de canção.
Mas não desejo explorar esse caminho hoje.
Após a entrevista com André, nessa busca incansável pela verdade, aprendi que às vezes na vida, o mistério e as respostas que não temos é o que a tornam tão interessante.
Comecei pensando sobre uma lista de rabos, e acabei entendendo melhor o filme Martyrs (2008).
Acredite: O rumo que essa newsletter está tomando me surpreendeu tanto quanto agora surpreende você.
Martyrs não está presente na lista de “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”, mas está frequentemente em listas de filmes de terror mais apavorantes, perturbadores e difíceis de assistir.
Essa fama me deixou longe dele por muito tempo. Normalmente, eu não me abalaria por isso, porque sempre que um filme ganha essa fama, acaba não sendo tudo isso. Mas esse filme é francês, e como fã de Mylene Farmer, eu sei do que eles são capazes.

Decidi assistir ano passado.
É violento e brutal? Sim. Mas eu estou acostumado, e amo o lixo que é a série Jogos Mortais, então por mais violento que seja, Martyrs não me fez fechar os olhos ou virar a cara.
Mas ao contrário de Jogos Mortais, Martyrs não é apenas torture porn. O terror é psicológico.
E aqui eu quero deixar claro que quem diz que terror psicológico é superior a outros tipos de terror está errado. Todos os gêneros de terror têm meu coração e assim como existem trocentos slashers clichê feitos nas coxas, o mesmo é verdade para terror psicológico.
Esclarecendo isso, voltemos a Martyrs. É um terror psicológico excelente e eu entendo porque pode causar crises existenciais em algumas pessoas. Sem querer dar muitos spoilers, mas falhando, o foco da história é uma sociedade secreta que tortura pessoas com o objetivo de fazê-las passar pela dor de um mártir, partindo do princípio de que mártires à beira da morte entram em êxtase e recebem revelações da vida após a morte.
Ao torturar a protagonista, Anna, das formas mais brutais possíveis, culminando em esfolamento - sua pele é arrancada viva - a instituição finalmente consegue criar sua primeira mártir, que revela o segredo da vida para Mademoiselle, a líder do grupo que, naturalmente, é uma velha fria servindo cunt de turbante e óculos de sol pequeninos.
A sociedade se reúne para receber de Mademoiselle o tão aguardado segredo a ela revelado por Anna. Mademoiselle pergunta a um assistente se ele imagina o que vem após a morte. Ele diz que não.
Mademoiselle diz “continue duvidando” e se mata.
Martyrs não nos conta o segredo da vida após a morte, e o final pode ser interpretado de diversas maneiras, mas após as respostas de André Dogão, me sinto tentado a crer que o sentido da vida é buscar o sentido da vida, não encontrá-lo.
Continue duvidando.









Me senti numa montanha russa lendo isso, parabéns pela criatividade!
Que leitura INCRÍVEL!!! Esse texto quase me lançou na incessante procura pelos 501 rabos, mas não vou me permitir entrar nesse "rabbit hole" 😏